Saí com um irmão de comunidade para comer um lanche, certo dia à noite. Terminamos em um local grande, lotado, com aparente falta de estrutura para possíveis condições de risco (se algo acontecesse, conversamos depois, teríamos que sair pela janela). Todos comiam e, nas telas espalhadas pelo recinto, assistiam-se pessoas se digladiando, tirando sangue umas das outras, em meio a tentativas de estrangulamento (UFC, o “esporte” da moda).
Parece que tinha tudo ali para nossa fome cultural hodierna: barulho, alimento e violência; esta última uma requentada forma de antropofagia. Na Roma antiga apresentavam ao povo pão e circo e a população se divertia com os trucidamentos no Coliseu… de cristãos! Saí de lá com a nítida impressão que algo não está certo em nossa sociedade. No dia seguinte confirmei isso quando descobri a “demência pugilística”, doença que afeta muitos que se expuseram à violência de pancadas na cabeça, que hoje estão pagando um alto preço.
Claro que muitos dos que estavam lá, como eu, não queriam ver aquilo. Mas quantas vezes comemos na frente da TV, em nossas casas, assistindo às mesmas cenas. Meu irmão de comunidade refletiu que a selvageria da luta servia para certa catarse das pessoas, muito estressadas. Pode ser, mas creio que há também um mórbido desejo em nós pelo sofrimento dos outros. Será que não está na hora de repensarmos nosso visceral desejo por violência?
Motivos não faltam para procurarmos novos padrões, e isso não é questão de politicamente correto. Além da doença em si, que estes lutadores terão que enfrentar no futuro, uma análise um pouco mais ampla nos mostra que certos modismos contribuem para manter as pessoas em uma situação de ignorância, presas ao puro sensacionalismo (não vão além da overdose de sensações, não dando espaço ao pensamento racional, privilégio humano). Com isso, as pessoas são massas de manobra, aptas aos “engenheiros sociais” que pensam a sociedade que querem produzir.
Olhando para o homem novo que é Jesus e com um pouco de esforço de nossa parte, sempre com a ajuda Dele, é possível mudar hábitos. Enquanto Freud diz que o ser humano deve aceitar seus desejos, caso contrário cairia na neurose, Jesus nos chama a vencermos a nós mesmos, a mudarmos hábitos, a renunciarmos certas exigências da natureza.
“Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do espírito, para chegardes a conhecer qual seja a vontade de Deus, a saber, o que é bom, agradável e perfeito.” (Rom 12,2)
Pe. Silvio, MIC